Le Reve est une seconde vie...

Hoje vi um daqueles filmes independentes que de vez em quando a gente acha escondidos nas prateleiras das (geralmente pobres) locadoras cariocas.  Produzido pelo excelente Edward Norton, que também faz o protagonista, Down in the Valley (“Vale Proibido”) é o segundo filme do diretor e roteirista David Jacobson, cujo talento pode ser sentido em cada centímetro da película.  Norton interpreta Harlan, um jovem e perturbado “cowboy urbano” que se apaixona pela belíssima filha adolescente de um policial.  O filme é triste, belo, perturbador e inteligente.  É uma espécie de western contemporâneo, ambientado nas locações ideais para isso – os desertos urbanos de San Fernando Valley.  Quem conhece a área da grande Los Angeles, conhece a mitologia de San Fernando Valley – local onde ninguém quer morar, mas onde o custo de vida é bem menor que na metrópole californiana.  O Valley é como um grande vazio ao redor de Los Angeles, por sua vez a epítome da vacuidade pós-moderna.  Baudrillard percebeu bem a extrema solidão que assola esses territórios simulacrais.  E não é à toa que a solidão é o grande tema dos westerns clássicos.  Sua cena mais emblemática é a do vaqueiro solitário cavalgando ao pôr do sol e deixando para trás todo outro indício de vida humana.  Harlan, o personagem de Norton, encarna essa solidão de forma visceral.  Lembro-me de como era fácil sentir-se só em Los Angeles.  Mas essa sensação era lá compensada pela magia das pasiagens de uma metrópole que parece, ela própria, um gigantesco cenário.  Eu adorava passear à noite pelas ruas de Culver City (west LA), onde morava, admirando as belíssimas ruas vazias, a perfeição irreal das fachadas e calçadas, o clima de sonho que parecia espreitar-me em cada esquina.  Lembro-me que em uma pequena praça nas redondezas havia alguns “props” de filmes antigos.  Era como se o cinema tivesse transbordado das telas e invadido a vida real.  Naqueles passeios noturnos eu me sentia como se estivesse realmente penetrando numa terra mágica.  Mas a verdade é que o limite entre a vida e sonho pode às vezes ser muito tênue mesmo.  Como dizia Calderón, “la vida es sueño”...  E o cinema é a mais bela maneira de sonhar.

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