Um silêncio sepulcral e um inacreditável mutismo telefônico marcam a lentíssima passagem das horas neste feriado enquanto leio a tese do Tadeu. Os contos de Poe, que já havia quase esquecido, desfilam na minha mente à medida que leio, tomado de certa angústia nervosa (para entrar no clima do trabalho, que discute as relações entre hipnose, fantasmagoria e o nascimento do cinema). A tarde está assustadoramente vazia, e uma preguiça extraordinária me domina. Para me distrair, começo a pensar em alguns dos trabalhos que li recentemente. Fico meditando sobre a expressão “êxtase não-dialético”, encontrado num deles. Que raios seria um êxtase dialético? Se o êxtase é a totalidade absoluta, como poderia existir algum que fosse dialético? É incrível como certas palavras têm o poder de mistificar construindo castelos de vento em textos sem sentido algum. Pululam por aí “rizomas”, “não-lugares”, “redes”, “desterritorializações”, “dualismos cartesianos” e outros chavões que, de tanto usados, já não dizem mais nada. São palavrinhas fáceis dos bordéis acadêmicos que se entregam a qualquer um sem nenhum pudor. Falta de decência intelectual! Naturalmente, não encontro nada disso no trabalho dessa criatura espectral que é o Tadeu. Só fantasmas, castelos góticos e espetáculos de magia. Mas mesmo assim a tarde continua se arrastando. Melhor sair de casa....
É uma livraria grande, bonita, com paredes de tijolo. Sei que é noite e que não estou aqui, mas
A arte da ataraxia é não ter expectativas. Os budistas exercem essa arte. Sempre lembro da entrevista de um monge budista que vi na televisão. O cara disse: “nunca me decepciono com as pessoas, porque nunca espero nada delas”. Mas essa atitude é algo incrivelmente difícil para um ocidental, mergulhado que está em um mundo de desejos, anseios e expectativas. É certo que o tempo vai te ensinando a lidar cada vez melhor com as decepções, mas certa medida delas é inevitável. Outro dia estava também recordando algumas leituras filosóficas e me dei conta de que quase não vivemos no presente. A maior parte do tempo, nós passamos lembrando o passado ou planejando, projetando para o futuro, criando expectativas. E o tempo é vivido como acumulação das coisas e não criação do novo, no sentido da durée bergsoniana. Não há dúvida de que isso é fonte de sofrimento. Mas uma atitude de suspensão dos desejos e das expectativas não seria também algo muito anti-vital? Não é o que espero e planejo aquilo que me move?
Hoje tive um daqueles sonhos estranhos em que pareço estar assistindo a um filme. Muitas vezes eu nem apareço, os fatos não aparentam ter nenhuma relação direta com minha vida, são desconhecidos os personagens. Mas acho que eu estava lá, com outra identidade. Não sei por que cargas d’água eu era um funcionário do alto escalão de uma empresa multinacional. Não lembro muitos detalhes, mas sei que tinha uma colega, muito elegante, muito charmosa, muito bonita. Acho que era francesa (ou estava aprendendo francês) e ruiva e tínhamos, aparentemente, um romance. Minha sensação era de ser eu mesmo e, ao mesmo tempo, outra pessoa. Experiência interessante sonhar. Sempre me fascinou, pena que eu ande com a memória tão opaca para os sonhos. Há alguns anos, passeando num sebo, comprei um diário de sonhos de Swedenborg. Singular cientista e místico sueco do século XVIII, Swedenborg era o tipo de sujeito que já parecia viver em sonho. Eu aprecio a estranheza, e o sonho, assim como o amor, são territórios da estranheza. Em Swedenborg, isso é potencializado: seus sonhos são incrivelmente barrocos, místicos e metafísicos. Já tive sonhos assim, mas ultimamente eles têm sido muito mais simples e “concretos”. Não entendo o porquê desses sonhos cinematográficos – talvez expressão do desejo ocasional de ser outro. “Je est un autre”: alguns atentados à gramática são a redenção da poesia.
Estive novamente
Como de costume, um longo tempo afastado daqui e volto com três posts de uma vez. Preciso de algum choque vital para me despertar de certos períodos de sono criativo. Tive um (ou mais até) esta semana. Vou voltar a falar um pouco sobre cinema. Nada como um bom contraste para começar (como o Hollywoodiano “
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