Novo livro
Objetos de Desejo II

Depois do media lounge da DLink, é hora de falar de outro objeto de desejo recentemente adquirido.  Sim, finalmente cedi ao IPod e pedi a minha irmã para me trazer o modelo de 30 gb.  Agora eu entendo porque a Apple consegue fomentar uma relação quase religiosa dos clientes com seus produtos.  Estou apaixonado pelo Ipod.  Coloquei todas as minhas (480) músicas no bichinho e mais 5 vídeos e ainda tenho 24 gigas livres.  A facilidade de uso e o design são realmente inebriantes.  Perto dessa qualidade, tudo o que a microsoft faz é realmente vergonhoso.  Isso não significa que não haja problemas.  A interface do software para dowload no Ipod (o Itunes) é bastante complicada e deficiente.  Carregar filmes para o Ipod é um processo chato e trabalhoso.  E acabei desistindo de usar o mecanismo de conversão do próprio Itunes.  Para converter um filme de 1 hora e 15 minutos feito no próprio formato do Quicktime meu pobre computador levou um dia inteiro!! (das 11 da manhã às 8 da noite).  Certo, minha máquina está capengando com um processador ultrapassado e 512 megas de RAM.  Mas um dia inteiro é ridículo!  Sorte que existem na internet até programas gratuitos para converter DivX e outros formatos para o Ipod (sem falar no excelente CloneDVD Mobile).  Mesmo com essas dificuldades, o Ipod é uma pérola do design e da funcionalidade.  Não admira que seja disparado o player mais adorado do mercado...

 

Deus e a Poesia

Muito trabalho: três dissertações grandes para ler, uma monografia, material para a reunião em Brasília... Mas não consigo me concentrar.  A mente está em outro local, planando em alturas estratosféricas.  Nesse estado de espírito, não me restava senão voltar a ler poesia, reaprender a lidar com sentimentos há longo tempo esquecidos.  A poesia é um exercício da alma, uma aeróbica do espírito.  Fiquei, então, folheando alguns dos meus preferidos: Angelus Silesius, Martin Fierro, Dámaso Alonso.  Este último tem um poema belíssimo, que nunca canso de ler.  Seu título está entre os mais belos, eu diria, da história da literatura: “Duda y amor sobre el Ser Supremo”.  Esse intervalo entre a dúvida e o amor é toda a vida – dividida entre a necessidade de crer em algo maior e melhor que este mundo e o reconhecimento de que o permanente combate contra a dúvida é inevitável.  Mas se o título do poema é de uma beleza extraordinária, me permitam então recordar algumas frases de tão dolorosa formosura que chega a ser difícil crer terem sido escritas por simples mortais: “l’étude du beau est un duel où l’artiste crie de frayeur avant d’être vaincu” (Baudelaire); “a regra de ser rei almou meu ser” (Fernando Pessoa) (que pode ser mais belo que essa transformação de um substantivo num verbo?); “eu faço versos como quem chora” (Manuel Bandeira); “Cuano murió el poeta se quedaron tristes todas las cosas pequeñitas que él cuidaba” (Damaso Alonso); “what immortal hand or eyey could frame thy fearful simmetry?” (Blake); “agora vemos por um espelho na obscuridade; depois veremos face a face” (Saulo de Tarso); “o poeta no templo é um ser velocíssimo, e ele próprio é um templo que penetra outro templo” (Jorge de Lima); “Ein jeder Engel ist schrecklich” (Rilke).  Pode haver alguns erros; cito de memória.  Mas a beleza dessas frases é tão poderosa que sobrevive às impiedades do esquecimento.  Com a poesia, aprendi a acreditar em outra dimensão do mundo, muito além do palpável e cotidiano.  E por isso eu sempre lembro aquele conto de Borges em que o bardo criou um poema tão magnífico que ofendeu os deuses com seu brilho.  Deus é poeta.  E viver pode, às vezes, ser poesia.

Morte aos Spammers!

Parece que matarm um grande “spammer” lá na Rússia.  Li em algum lugar faz algum tempo.  Bem feito!  Nada me deixa mais P** do que esses cornos que fazem spam.  É uma raça degradada, da mesma espécie que aqueles imbecis que anunciam “serviços acadêmicos” de confecção de monografias, dissertações e teses.  Dois tipos de insetos que não param de se multiplicar, chafurdando na lama da idiotice.  Agora, a nova moda é fazer spam de softwares para spam!  É o spam em versão metalinguagem!  Spam ao segundo grau.  O mais irritante é não poder dirigir uma resposta polida aos spammers.  Eu estou cansado de saber disso, mas mesmo assim insisto em inutilmente responder aos seus emails solicitando o redirecionamento de suas missivas para determinada cavidade corporal.  O spammer é uma criatura tão asquerosa que devia ser executado sumariamente, sem direito a julgamento.  Eles poluem o ciberespaço com mensagens sobre ampliação peniana e uso de drogas para resolver a impotência.  Sim, a maioria dos spams diz respeito a produtos relacionados à atividade sexual, o que indica a obsessão desses seres com aquilo que lhes falta.  Vamos iniciar uma saudável campanha em prol da morte de todos os spammers e “escreventes de monografias acadêmicas”.

mansidão
"manso e manso, entrou-lhe o amor no coração" (Machado, "A Causa Secreta")
Os Destinos de um Texto

Quando voltei ao Brasil, em 1999, não sabia ainda sobre o que iria escrever ou pesquisar.  Havia me apaixonado pela literatura e pela filosofia, e a comunicação passara a ser um interesse muito distante.  Um dia, pensando sobre o filme que tinha acabado de assistir, decidi escrever algo sobre as estranhas e intrigantes relações entre cibercultura e religiosidade.  Mandei o ensaio, sobre o filminho da moda de então, "Matrix", para a bela revista da Unisinos, "Fronteiras".  Eles publicaram o artigo e, aparentemente, tornou-se um pequeno "best seller" acadêmico no curso de comunicação.  Sobre o tal texto, minha amiga Suely Fragoso escreveu o seguinte:

"Do Erick, conheci primeiro um texto. Todo mundo (colegas, alunos) vinha me perguntar se eu já havia lido o tal texto. Eu respondia que não e logo o interlocutor, qualquer que fosse, começava a desfiar o rosário de qualidades imperdíveis... os elogios eram tantos que eu já estava convencida que odiaria a leitura (detesto best-seller acadêmico). Para minha supresa a-do-rei o dito texto. Quando fui encontrar o autor (por conta de uma palestra aqui no RS) estava esperando um sujeitinho chato e arrogante, cheio de si com o excesso de talento que o destino lhe dera - nova surpresa! O Erick é tudo de bom - inteligente e talentoso, sim, mas também simpático, agradável, tranquilo...".

Por causa desse pequeno texto, me convidaram para participar, junto com o amigo André Lemos, da Semana da Imagem na Unisinos, uma das experiências mais bacanas que tive em minha vida acadêmica.  Eu era um ilustre desconhecido, e a Suley disse que esperavam um velho encarquilhado de grossos óculos.  Hoje eu releio esse texto e não posso deixar de me admirar com sua ingenuidade (mas também com seu vigor), a inocência de quem achava que iria conquistar o mundo.  Agora, ainda entusiasmado, mas muito mais realista, reencontro com prazer muitos textos que escrevi há ainda mais tempo, nos anos do mestrado, por exemplo.  Que caminhos eles não percorreram para chegar ao que são hoje?  Não sou mais aquele de então ("não é possível banhar-se no mesmo rio duas vezes"), mas tenho saudades de algumas partes de mim...

 

 

espectros fotográficos
carente de algum êxtase

Um silêncio sepulcral e um inacreditável mutismo telefônico marcam a lentíssima passagem das horas neste feriado enquanto leio a tese do Tadeu.  Os contos de Poe, que já havia quase esquecido, desfilam na minha mente à medida que leio, tomado de certa angústia nervosa (para entrar no clima do trabalho, que discute as relações entre hipnose, fantasmagoria e o nascimento do cinema).  A tarde está assustadoramente vazia, e uma preguiça extraordinária me domina.  Para me distrair, começo a pensar em alguns dos trabalhos que li recentemente.  Fico meditando sobre a expressão “êxtase não-dialético”, encontrado num deles.  Que raios seria um êxtase dialético?  Se o êxtase é a totalidade absoluta, como poderia existir algum que fosse dialético?  É incrível como certas palavras têm o poder de mistificar construindo castelos de vento em textos sem sentido algum.  Pululam por aí “rizomas”, “não-lugares”, “redes”, “desterritorializações”, “dualismos cartesianos” e outros chavões que, de tanto usados, já não dizem mais nada.  São palavrinhas fáceis dos bordéis acadêmicos que se entregam a qualquer um sem nenhum pudor.  Falta de decência intelectual!  Naturalmente, não encontro nada disso no trabalho dessa criatura espectral que é o Tadeu.  Só fantasmas, castelos góticos e espetáculos de magia.  Mas mesmo assim a tarde continua se arrastando.  Melhor sair de casa....

Sonho Borgiano

É uma livraria grande, bonita, com paredes de tijolo.  Sei que é noite e que não estou aqui, mas em outros territórios.  Nas prateleiras, muitos livros em espanhol, alguns dicionários de lunfardo.  De repente, sentado numa mesa ao lado de um homem vestindo sobrecasaca está Borges.  Os dois conversam.  Borges fala e eu paro para ouvi-lo, fascinado.  O homem sorri e faz um gesto para que eu me aproxime.  Eu chego perto e lhe digo: “sei que é um sonho, mas é incrível!  Além disso, Borges e sonhos têm tudo a ver”.

much ado about nothing

A arte da ataraxia é não ter expectativas.   Os budistas exercem essa arte.  Sempre lembro da entrevista de um monge budista que vi na televisão.  O cara disse: “nunca me decepciono com as pessoas, porque nunca espero nada delas”.  Mas essa atitude é algo incrivelmente difícil para um ocidental, mergulhado que está em um mundo de desejos, anseios e expectativas.  É certo que o tempo vai te ensinando a lidar cada vez melhor com as decepções, mas certa medida delas é inevitável.  Outro dia estava também recordando algumas leituras filosóficas e me dei conta de que quase não vivemos no presente.  A maior parte do tempo, nós passamos lembrando o passado ou planejando, projetando para o futuro, criando expectativas.  E o tempo é vivido como acumulação das coisas e não criação do novo, no sentido da durée bergsoniana.  Não há dúvida de que isso é fonte de sofrimento.  Mas uma atitude de suspensão dos desejos e das expectativas não seria também algo muito anti-vital?  Não é o que espero e planejo aquilo que me move? 

Drömboken (livro de sonhos)

Hoje tive um daqueles sonhos estranhos em que pareço estar assistindo a um filme.  Muitas vezes eu nem apareço, os fatos não aparentam ter nenhuma relação direta com minha vida, são desconhecidos os personagens.  Mas acho que eu estava lá, com outra identidade.  Não sei por que cargas d’água eu era um funcionário do alto escalão de uma empresa multinacional.  Não lembro muitos detalhes, mas sei que tinha uma colega, muito elegante, muito charmosa, muito bonita.  Acho que era francesa (ou estava aprendendo francês) e ruiva e tínhamos, aparentemente, um romance.  Minha sensação era de ser eu mesmo e, ao mesmo tempo, outra pessoa.  Experiência interessante sonhar.  Sempre me fascinou, pena que eu ande com a memória tão opaca para os sonhos.  Há alguns anos, passeando num sebo, comprei um diário de sonhos de Swedenborg.  Singular cientista e místico sueco do século XVIII, Swedenborg era o tipo de sujeito que já parecia viver em sonho.  Eu aprecio a estranheza, e o sonho, assim como o amor, são territórios da estranheza.  Em Swedenborg, isso é potencializado: seus sonhos são incrivelmente barrocos, místicos e metafísicos.  Já tive sonhos assim, mas ultimamente eles têm sido muito mais simples e “concretos”.  Não entendo o porquê desses sonhos cinematográficos – talvez expressão do desejo ocasional de ser outro.  “Je est un autre”: alguns atentados à gramática são a redenção da poesia.

voe feliz, use asa delta

Estive novamente em São Paulo.  Reuniões produtivas, mas muito cansativas.  Nas horas vagas, um pouco de tempo para ver a polêmica exposição dos corpos, passear na galeria Ouro Fino e aproveitar os excelentes restaurantes e serviços de São Paulo (incomparavelmente melhores que os do Rio).  Na volta, milagrosamente, um atraso de apenas um hora, passada, porém, no interior de um avião não refrigerado.  O que está acontecendo?  Virou moda torrar passageiros?  Acham que a gente está precisando perder peso?  Economizam na energia?  Eu não tenho dúvidas de que este país está acéfalo e de que Lula foi um grande equívoco (meu também, confesso).  A crise da aviação é uma pequena, mas grave, amostra disso.  Dia 19 estarei de volta em São Paulo e dia 24 – “the horror, the horror” – em Brasília!  Durmo tenso prefigurando os horrores que me aguardam nos saguões dos aeroportos.

acordei

Como de costume, um longo tempo afastado daqui e volto com três posts de uma vez.  Preciso de algum choque vital para me despertar de certos períodos de sono criativo.  Tive um (ou mais até) esta semana. Vou voltar a falar um pouco sobre cinema.  Nada como um bom contraste para começar (como o Hollywoodiano “300” e o brilhante O “cheiro do Ralo”).  Preciso apenas de um tempinho para me organizar.

 

Le Reve est une seconde vie...

Hoje vi um daqueles filmes independentes que de vez em quando a gente acha escondidos nas prateleiras das (geralmente pobres) locadoras cariocas.  Produzido pelo excelente Edward Norton, que também faz o protagonista, Down in the Valley (“Vale Proibido”) é o segundo filme do diretor e roteirista David Jacobson, cujo talento pode ser sentido em cada centímetro da película.  Norton interpreta Harlan, um jovem e perturbado “cowboy urbano” que se apaixona pela belíssima filha adolescente de um policial.  O filme é triste, belo, perturbador e inteligente.  É uma espécie de western contemporâneo, ambientado nas locações ideais para isso – os desertos urbanos de San Fernando Valley.  Quem conhece a área da grande Los Angeles, conhece a mitologia de San Fernando Valley – local onde ninguém quer morar, mas onde o custo de vida é bem menor que na metrópole californiana.  O Valley é como um grande vazio ao redor de Los Angeles, por sua vez a epítome da vacuidade pós-moderna.  Baudrillard percebeu bem a extrema solidão que assola esses territórios simulacrais.  E não é à toa que a solidão é o grande tema dos westerns clássicos.  Sua cena mais emblemática é a do vaqueiro solitário cavalgando ao pôr do sol e deixando para trás todo outro indício de vida humana.  Harlan, o personagem de Norton, encarna essa solidão de forma visceral.  Lembro-me de como era fácil sentir-se só em Los Angeles.  Mas essa sensação era lá compensada pela magia das pasiagens de uma metrópole que parece, ela própria, um gigantesco cenário.  Eu adorava passear à noite pelas ruas de Culver City (west LA), onde morava, admirando as belíssimas ruas vazias, a perfeição irreal das fachadas e calçadas, o clima de sonho que parecia espreitar-me em cada esquina.  Lembro-me que em uma pequena praça nas redondezas havia alguns “props” de filmes antigos.  Era como se o cinema tivesse transbordado das telas e invadido a vida real.  Naqueles passeios noturnos eu me sentia como se estivesse realmente penetrando numa terra mágica.  Mas a verdade é que o limite entre a vida e sonho pode às vezes ser muito tênue mesmo.  Como dizia Calderón, “la vida es sueño”...  E o cinema é a mais bela maneira de sonhar.

As Maravilhas da Tecnologia e sua Contribuição ao Cinéfilo

Comprei esse aparelhinho da foto em Nova Iorque por U$ 240.00, em novembro do ano passado.  O que ele faz?  Ele se conecta à minha rede sem fio e acessa um software de servidor instalado no meu computador.  Ele identifica meus arquivos de áudio e vídeo (mp3, avi, DivX, etc...) armazenados no HD e os transmite na minha televisão, com qualidade de DVD.   Eles ainda não chegaram no Brasil.  São chamados media servers, e a Apple acabou de lançar um (Apple TV) com HD embutido.  É a convergência tecnológica.  Graças a esse maravilhoso “gadget” (que hoje, apenas 4 meses depois, está custando somente U$ 170.00), já não preciso gravar meus arquivos de vídeo em CD ou DVD para assisti-los na televisão.  E se você tiver um arquivo de subtítulos (*sub) no mesmo folder e com o mesmo nome do filme, a parafernália lê o documento e insere as legendas automaticamente.  Graças a tudo isso, nestas duas últimas semanas assisti a alguns filmes que estão longe de chegar por estas terras.  Veja abaixo...

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